Articulada sonhadora
21 fevereiro 2015
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Eu observava todos passarem euforicamente em minha frente. Gente de todas as idades, cores e tamanhos, passavam, paravam e ficavam a me observar. Minuciosamente, faziam alguns comentários a meu respeito, mas não podia ouvi-los. Intacta, não conseguia me mexer e nem exercer função nenhuma, a não ser a de me exibir. Muitos me invejavam por cada dia eu apresentar uma roupa diferente, de alguma marca famosa e alto valor financeiro. Algumas vezes me despiam e logo vinha uma nova cor, um novo tecido. Mas nunca, nunca mesmo, repeti a mesma vestimenta.
Apesar da ostentação eu tinha vontade de ser como eles. De poder ao menos me mexer, andar, tocar os outros que do outro lado transparente do vidro habitam. Tenho vontade de poder trocar palavras, escutar a minha própria voz e, até mesmo pentear meus cabelos. Mas, nada disso eu posso fazer. Nada.
Mesmo artificial, eu tenho sentimentos. Eu vejo a criança chorando e me comovo. Vejo a pobre idosa passando e sinto-me rejeitada por não envelhecer e aproveitar os prazeres da vida. Os sentimentos são muitos, mas meu corpo é oco. Há um grande vazio em mim. Um grande vazio que dificilmente há de ser preenchido por outra coisa que não seja uma espuma ou folhas amassadas de jornal.
Sinto enorme vontade de poder em um dia de sol caminhar por entre o bosque e sentir o frescor das árvores ou a brisa do mar. Poder mostrar aos outros que eu também sou gente. Mesmo que plastificada, eu sou gente. Mostrar às pessoas que nem sempre é bom ter uma vida como a minha, que permaneço sempre parada e trocando de roupa. É cansativo.
É exaustivo sentir a ânsia de pertencer a um corpo que não é o seu. A minha vontade é poder quebrar e estilhaçar em mil pedacinhos toda essa estrutura que me aprisiona. Tirar de mim todo esse peso capitalista que está sob meus ombros. Dizer que nem sempre a roupa mais bonita, é agradável a quem a veste.
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